Jorge, Artur Ricardo

Da Memória da Universidade

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Artur Ricardo Jorge (1886-1974)

Jorge, Artur Ricardo (N. Porto, 1886; ob. Lisboa, 1974). Área: Ciências Histórico-Naturais. Docente: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Fil. cient.: Hospital de São José, Hospitais Civis de Lisboa. Dirigente de: Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico - Museu Bocage. Fundador de: Laboratório Marítimo da Guia. Docente de: Zoologia e Antropologia, Zoologia Sistemática. Leva a cabo: XII Congresso Internacional de Zoologia. Aluno: Escola Politécnica de Lisboa, Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, Universidade de Genebra. Curso: Medicina (PE). Discípulo de: Sampaio, Gonçalo. Profissão: Médico;Cirurgião. Cargo(s): Naturalista (Museu Botânico, ?, ?), Naturalista (Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico - Museu Bocage, ?, ?), Ministro da Instrução Pública (?, ?, ?), Professor Catedrático (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ?, ?).


Artur Ricardo Jorge (1886-1972)

Reorganização científica e pedagógica do Museu Bocage

Carlos Almaça

Zoologia e Antropologia e Centro de Biologia Ambiental, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


Fonte: Memórias de professores cientistas. Coord. cient. Ana Simões. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001. pp. 26-33.

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O ano que decorre assinala o nonagésimo aniversário da reinstalação da Universidade de Lisboa e fundação da sua Faculdade de Ciências, directa descendente da Escola Politécnica. Nesse ano de 1911, o Museu Bocage passou a constituir um estabelecimento anexo daquela Faculdade, com a designação oficial e completa de Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico (Museu Bocage), que continua a manter. Esta instituição foi incumbida da investigação, ensino, exibição e extensão cultural nos domínios da Zoologia e Antropologia.[1]

Nesse mesmo ano, o elenco de disciplinas da Faculdade de Ciências foi distribuído por três secções, correspondendo a 3ª. Secção às Ciências Histórico-Naturais, que incluía dois grupos - Ciências Geológicas e Ciências Biológicas -, ambos participantes fulcrais no ensino da Licenciatura em Ciências Histórico-Naturais. O 2º. Grupo, Ciências Biológicas, compreendia os Sub-grupos de Botânica, de Zoologia e de Antropologia, cada um com as respectivas disciplinas. Duas décadas mais tarde, em 1930, houve reestruturação dos grupos, licenciaturas e disciplinas, aglutinando-se a Zoologia e a Antropologia no 3º. Grupo da 3ª. Secção e instituindo-se a Licenciatura em Ciências Biológicas, participada na sua parte essencial e especial também pelo 2º. Grupo (Botânica).

Embora, antes de 1930, o quadro de professores do Grupo de Ciências Biológicas fosse comum, havia, naturalmente, uma certa especialização determinada, em primeira análise, pela investigação praticada, que orientava os docentes para um ou outro dos três sub-grupos incluídos. No entanto, o Sub-grupo de Antropologia, enquanto existiu, esteve até tarde dependente de zoólogos de formação, o que terá contribuído para a feição que a Antropologia sempre manteve na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Com efeito, a ela se aplica com inteireza uma das muitas orientações que lhe são atribuídas: a de estudar a “zoologia do homem”.[2]


Só bastante tarde, já na década de 1990, o Museu Bocage foi desanexado da Faculdade de Ciências, retomando em exclusividade a função, que também já lhe fora atribuída (em 1919), de Secção Zoológica e Antropológica do Museu Nacional de História Natural, dependente da Universidade de Lisboa. Enquanto estabelecimento anexo - durante cerca de 80 anos -, várias gerações de docentes, naturalistas e pessoal técnico lhe deram vida e continuidade no ensino, investigação e exibição. Todos diferentes no plano individual, como é norma na vida, desempenharam as suas funções conforme os talentos pessoais e os circunstancialismos sócio-culturais lhes consentiram.

Artur Ricardo Jorge foi aluno muito distinto do Curso Médico-Cirúrgico, frequentando os preparatórios de Medicina (FQN-Física, Química e Ciências Naturais) na Escola Politécnica em 1903-1904 e a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa entre 1904-1905 e 1908-1909. Ficou habilitado para o desempenho profissional em 1909 com uma tese inaugural em que obteve a classificação de 20 valores.

Nessa tese, intitulada “Biomorfoses. Esboço de Bio-pathologia”, denunciava já a sua inclinação para os estudos histórico-naturais, não hesitando em considerá-la, logo no prefácio, como uma tese de biomedicina, ou biologia médica, o que, ao tempo, não seria nada comum. O termo “biomorfose” foi buscá-lo ao botânico A. Chodat, que o criara em 1907 no sentido de “efeitos morfogénicos nas plantas por acção de um ser vivo”[3]. Ricardo Jorge estendeu o fenómeno aos animais, pois também estes manifestam alterações morfológicas provocadas por outros seres vivos. Redigiu então o que ele próprio considerava “um estudo geral e doutrinal da questão”, ou seja, uma revisão sobre a simbiose, no sentido mais amplo do termo, e efeitos patogénicos, quando os há, decorrentes da associação de seres vivos.

A sua carreira bifurcou-se a partir de então em actividades profissionais desempenhadas em simultâneo durante alguns anos: a de cirurgião hospitalar e a de docente do Grupo de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências. Só esta última será aqui considerada. Provido como 2º. Assistente provisório no ano da fundação da Faculdade de Ciências, orientou a sua preparação científica para a Botânica. Neste domínio proferiu uma interessante lição na Universidade Livre, em 21 de Julho de 1912, intitulada “A Botânica. Introdução ao estudo das plantas” em que perspectiva de forma geral e acessível a ciência dos vegetais[4].

Desejando aprofundar a sua formação científica, frequentou o Curso de Botânica de Chodat (Universidade de Genève), durante o semestre de Verão de 1913. Em 1915, elaborou a tese de concurso para 2º. Assistente do Grupo de Ciências Biológicas, que versou sobre “As bactérias em fitopatologia. Parte I. Patologia geral”. Terminou as provas em 30 de Novembro de 1915, sendo aprovado por unanimidade como 2º. Assistente definitivo daquele Grupo. Dedicou-se ao estudo taxonómico dos líquenes, registando na sua primeira publicação sobre este tema cinco espécies e duas variedades novas para Portugal[5]. Foi, entretanto, nomeado 1º. Assistente e, já neste cargo, publicou um segundo artigo em que indica como novidades para Portugal mais seis espécies e uma variedade[6]. Entre 1919 e 1928 acumulou os cargos docentes com o de naturalista do Museu Botânico.

Iniciou a colaboração com o Sub-grupo de Zoologia quando 1º. Assistente. Logo em 1919-1920 foi encarregado pelo Conselho Escolar da regência do Curso de Zoologia preparatório para a Faculdade de Medicina, apresentando relatório sobre ela que foi publicado no ano seguinte. Neste relatório insurge-se, firme e coerentemente, contra as opiniões dos professores de Medicina, que desejavam para o Curso de Zoologia um carácter “mais geral e elementar, completando as noções adquiridas nos liceus e insistindo mais particularmente sobre os caracteres de Anatomia comparada”[7]. Mais desejavam os professores de Medicina: retirar do programa de Zoologia as noções de Parasitologia. No entanto, anos antes haviam defendido a inclusão nesse programa da prática de identificação (a que chamavam classificação) de Dípteros, Afanípteros, Ácaros, Nemátodes, Tremátodes e Céstodes parasitas e vectores. Nada pouco para alunos que tinham apenas uma preparação liceal e numa época em que a Parasitologia humana dava passos agigantados por via da colonização científica dos territórios ultramarinos de países europeus.

A reacção de Ricardo Jorge às notas e comentários dos professores de Medicina foi, como já se assinalou, firme e séria - a reacção de quem estava cientificamente por dentro dos problemas e conhecia as dificuldades e possibilidades de os resolver. O relatório, denso, embora com apenas sete páginas impressas, constitui, pelo seu desassombro e limpidez, um interessante exemplar da obra publicada, que é pouco extensa, de Ricardo Jorge.

Em 21 de Outubro de 1921, o Conselho Escolar propôs por unanimidade a promoção de Ricardo Jorge a professor ordinário (categoria que passaria, em 1926, a professor catedrático) do Grupo de Ciências Biológicas. Não mais cessaria a participação de Ricardo Jorge no Sub-grupo de Zoologia, embora mantivesse actividade docente e de naturalista no Museu Botânico por mais alguns anos. Assim, em 1922, a Secção propunha-o para as regências de Zoologia dos Vertebrados e do Curso Geral de Botânica e de Botânica FQN.

O seu grande talento de organizador terá começado a despontar com este contacto frequente com a Zoologia. Após o desaparecimento de Barbosa du Bocage, o Museu caiu num abandono quase completo, o que, como se sabe, provoca a rápida degradação de colecções zoológicas. Os cuidados com o edifício também não se verificaram, de modo que até chovia nas salas do Museu. Incapaz de resolver os problemas, Baltasar Osório, que assumira a direcção em idade já avançada, fechou-o ao público em 1921. E a degradação continuou. Tudo isto era patente aos olhos de Ricardo Jorge. Quando em 1924, na qualidade de médico sanitário, foi enviado pela Sociedade das Nações à Dinamarca a fim de tomar conhecimento dos serviços e instituições de saúde pública, o director da Faculdade de Ciências solicitou superiormente que essa viagem fosse também aproveitada para, sem encargos para o Estado, Ricardo Jorge visitar institutos de história natural.

Com efeito, a breve prazo Ricardo Jorge transitou como professor catedrático para a Zoologia, que, a partir de 1930, passou a constituir, juntamente com a Antropologia, o 3º. Grupo da 3ª. Secção. Em 1927, foi nomeado director do Museu Bocage e iniciou, então, uma intensa actividade de reorganização do Museu e suas actividades como estabelecimento anexo da Faculdade de Ciências.

Para isso, Ricardo Jorge visitou museus europeus quando da realização dos Congressos Internacionais de Zoologia em que participou (do X Congresso, 1927, em Budapeste, até ao XV, 1958, em Londres) ou em missões com essa finalidade. Os seus conhecimentos em museologia zoológica são patentes em dois excelentes estudos que publicou. O primeiro, que é um relatório apresentado ao I Congresso Nacional de Ciências Naturais, na sua VI Sessão Plenária, em 11 de Junho de 1941[8], já consagra as ideias de Möbius sobre Museus de História Natural, ao tempo inovadoras. O segundo, na mesma linha, foi a oração de sapiência proferida na abertura do Ano lectivo de 1951-1952[9]. A meticulosidade com que elaborou um e outro reflectem o empenhamento com que empreendeu a reorganização do Museu Bocage, infelizmente desacompanhada de um circunstancialismo sócio-cultural que permitisse chegar mais longe.

Seja como for, os serviços de exploração zoológica, preparação dos exemplares e taxidermia foram organizados por Ricardo Jorge, iniciando-se logo em 1927 a reconstituição das colecções e das salas de exibição, cujo aspecto era então desolador[10]. Perante as carências evidenciadas, Ricardo Jorge decidiu privilegiar os invertebrados marinhos nas colheitas e estudos. Este grande conjunto de animais tinha sido sempre negligenciado no Museu Bocage, pouco havendo a registar sobre ele para além das investigações taxonómicas sobre esponjas e crustáceos decápodes, de Barbosa du Bocage e Capelo e Osório, respectivamente. Em curta nota, Ricardo Jorge (1931) dá conhecimento da orientação que o Museu Bocage seguirá.[11]

Porém, o seu empenhamento iria muito mais longe. Logo em 27 de Janeiro de 1928 obteve autorização do Ministério da Instrução Pública para outorgar, em nome do Ministério, o contrato de arrendamento do Forte da Guia, em Cascais, no qual planeou a instalação de um Laboratório Marítimo. As difíceis obras de adequação deste Forte arrastaram-se por longos anos. Outros acontecimentos coetâneos reforçariam a planificação inicial de Ricardo Jorge. Com efeito, preparava-se na mesma época a reestruturação dos cursos da Faculdade de Ciências, iniciando-se no Ano lectivo de 1930-1931 a Licenciatura em Ciências Biológicas, que especificava cadeiras de Sistemática e incorporava novas disciplinas de Ecologia. O cariz do ensino da Zoologia, até então excessivamente intramuros, teve de alterar-se por força da inclusão de matérias relacionadas com o estudo do meio ambiente, tornando-se mais conforme com o que já se praticava há muito tempo na Europa central e setentrional.

Ora, nenhum ambiente como o da zona litoral marítima oferece tanta diversidade zoológica, ainda por cima de periódica acessibilidade directa na zona de marés. Os animais e suas relações recíprocas, com as plantas marinhas e com os factores do meio (profundidade, exposição, hidrodinamismo, substrato, etc.) são facilmente observáveis e colectáveis, o que faz da zona de marés um interessante domínio de experiências didácticas. Nesta conformidade, Ricardo Jorge organizou um “laboratório móvel” que possibilitava a triagem e trabalhos preliminares de observação, preparação e conservação do material colhido, com o qual, ao longo dos anos, percorreu o litoral português acompanhado de estudantes, docentes e naturalistas e outro pessoal do Museu. Para além disso, adquiriu uma traineira de dragagens, Physalia, destinada a colheitas mais profundas, na zona sublitoral. Enveredou, ele próprio, pela investigação taxonómica e ecológica de anelídeos poliquetas[12], tema sobre o qual, infelizmente, quase nada publicou, mas de que reuniu uma colecção de cerca de trezentas espécies do litoral português e deixou centenas de fichas com notas e desenhos (arquivo histórico do Museu Bocage).

A Ricardo Jorge se deve, igualmente, a reorganização da biblioteca do Museu, a que, compreensivelmente, imprimiu um cariz histórico-natural na essência. Recrutou docentes e naturalistas, acumulando ele próprio as duas funções enquanto a lei lho consentiu (até 1941). O escasso número dos preciosos lugares de naturalista - base da organização e rotina dos museus de história natural, infelizmente extintos há alguns anos -, obrigou-o a repartir o vastíssimo mundo da Zoologia por sectores curatoriais excessivamente amplos. Era, porém, o possível - e ainda hoje o é, visto que os lugares equivalentes não aumentaram -, e tal situação apenas melhorou ligeiramente porque alguns docentes desempenhavam actividades científicas compatibilizadas com a rotina museológica. Também no sector didáctico procurou apetrechar a Zoologia com material adequado[13].

Como órgão de divulgação da actividade científica do Museu, Ricardo Jorge criou a revista anual Arquivos do Museu Bocage, de que editou 27 volumes desde 1930 (1º. volume) até 1956, data da sua jubilação. Órgão de permuta de literatura zoológica, antropológica e biológica geral produzida por instituições similares (mais de 400, actualmente, por permuta com descendentes da primeira versão), aquele conjunto publicou valiosas contribuições para o conhecimento da fauna portuguesa e ultramarina, antropologia física e biologia geral. Com efeito, em Arquivos foram publicadas as descrições originais de vários géneros e de cerca de 200 espécies nominais de Antozoários, Copépodes, Aracnídeos, Odonatas, Coleópteros, Homópteros, Peixes, Répteis, Aves e Mamíferos (Quirópteros, Carnívoros, Artiodáctilos e Roedores), sobretudo africanos.

Várias carreiras científicas plasmaram em Arquivos do Museu Bocage o essencial da sua produção. Referir-se-á, em particular, Germano da Fonseca Sacarrão, primeiro naturalista, depois professor, cuja investigação em embriologia de cefalópodes atingiu significativo realce nas páginas de Arquivos, designadamente ao discutir o papel do ovo telolecítico na evolução biológica[14], a lei biogenética e o real significado da gastrulação[15] e as relações embrião-orgão vitelino na ontogenia dos cefalópodes[16].

Outros autores deixaram copiosa colaboração científica em Arquivos, nomeadamente Amélia Bacelar (naturalista) em aracnologia, Fernando Frade (naturalista e professor) no estudo dos atuns, Barbosa Sueiro (docente contratado) em antropologia física, Albert Monard (naturalista suíço) em vertebrados da Guiné e de Angola, A.Xavier da Cunha (professor) em hidropólipos do litoral português, etc.

Ricardo Jorge foi também o organizador do XII Congresso Internacional de Zoologia (Lisboa, 15-21 de Setembro de 1935). Este congresso reuniu mais de 300 participantes, entre eles famosos zoólogos da época como A.Kühn, R.Goldschmidt, W.T.Calman, T.Mortensen, M.Caullery, Ch.Gravier, L.Roule, L.Berland, J.Pellegrin, J.Millot, P.P.Grassé, A.Vandel, A.Ghigi, U.d’Ancona, H.Boschma, E.Racovitza, etc. Os Comptes Rendus do Congresso, três livros com quase 2500 páginas, inserem muitas dezenas de conferências e comunicações e constituem o volume VI-A de Arquivos do Museu Bocage.[17] Para o seu programa social, que incluiu um pormenorizado conhecimento de Lisboa e arredores e uma viagem de quatro dias pelo litoral centro e norte do país no período pós-congresso, teve honras de edição de um guia intitulado Introduction à la connaissance de Lisbonne (1935), em que a história da cidade e arredores é narrada sempre em conexão com as descrições dos seus monumentos e instituições. Organização de tal envergadura numa época em que Portugal era um país tão atrasado, revela não só a boa colaboração que Ricardo Jorge soube concitar como a enorme energia que era capaz de concentrar na resolução dos seus objectivos.

Coube ainda a Ricardo Jorge e seus colaboradores a organização de uma sala do Museu Bocage na Exposição do Mundo Português (Lisboa, 1940). Ainda que discutíveis os critérios de selecção dos exemplares, a verdade é que esta divulgação do Museu Bocage incluía representantes de 350 espécies, para além de notícias sobre os principais zoólogos portugueses. Tal iniciativa já foi, no entanto, documentada noutra publicação[18].

Ficou por realizar, embora anunciada no último volume de Arquivos que editou (vol. 27, 1956), a intenção de publicar um catálogo de tipos do Museu Bocage. Tarefa muito ingrata, pois no tempo de Barbosa du Bocage, em que se descreveram muitas dezenas de espécies nominais, os exemplares-tipo não tinham a representatividade e valor que se lhes reconheceu no século XX. Muitos estariam já perdidos devido ao abandono a que se deixaram as colecções após o desaparecimento de Bocage, sem que se soubesse com inteira certeza quais os que estavam e os que não estavam. Porém, tarefa de incontestável utilidade e indispensável na fixação de neótipos. De qualquer forma, após o incêndio de 1978 e quase total destruição das colecções do Museu Bocage, não seria mais do que um catálogo de “tipos perdidos”, apesar disso não completamente inútil.

A obra de Ricardo Jorge não incluiu aquela participação que se considera indispensável, e bem, na actividade de um professor universitário, sobretudo se intelectual e tecnicamente dotado como ele foi: a publicação de resultados de investigação própria. Tal ausência é difícil de entender para quem conhece, como o autor destas linhas, as muitas centenas de fichas com registo de observações, desenhos, localidades de colheita, variabilidade, crítica de diagnoses e outros elementos sobre os anelídeos poliquetas do litoral português, grupo a que se dedicou a partir de 1930. Seja como for, a realidade é que não divulgou esse trabalho de uma vida. Porém, muitas outras realizações se contabilizam no seu activo e sobre elas se concentraram as linhas anteriores. Uma delas, todavia, era a mais estimada de Ricardo Jorge: a criação do Laboratório Marítimo da Guia.

Após longos trabalhos de adequação que decorreram em todo o período em que Ricardo Jorge foi director do Museu Bocage, o Laboratório Marítimo da Guia ficou, enfim, minimamente equipado para lá se poder trabalhar. A tal ponto que, por iniciativa do então director do Museu, G.F. Sacarrão, e do signatário, lá se realizaram, em 1966, aulas práticas de Zoologia Sistemática. O projecto, infelizmente, esgotou-se aí, pois era incomportável para o Museu deslocar para o Laboratório da Guia todo o pessoal necessário à realização dessas aulas, ainda que por apenas alguns dias por mês. Porém, tinha-se demonstrado que a concretização da maior aspiração de Ricardo Jorge - praticar o ensino no Laboratório da Guia -, era afinal possível.

Agradecimentos

Agradeço à Senhora D. Paula Ricardo Jorge o material que me cedeu para conhecimento mais alargado da obra de seu pai. Igualmente agradeço ao Serviço de Pessoal da Reitoria da Universidade de Lisboa que apartou, a meu pedido, documentação relativa a Artur Ricardo Jorge.

Referências

  1. Para mais pormenores sobre a história e realizações do Museu Bocage ver C. Almaça, 1987. “A Zoologia e a Antropologia na Escola Politécnica e na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (até 1983)” in Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Passado/ Presente/ Perspectivas futuras (Lisboa: Museu de Ciência, 1987), 293-312; C. Almaça. Museu Bocage. Ensino e exibição (Lisboa: Museu Bocage, 2000).
  2. F. Frassetto. Lezioni di Antropologia (Milano: Ulrico Hoepli, 1918, 2ª. ed.).
  3. A. Ricardo Jorge. Biomorfoses. Esboço de bio-pathologia. (Lisboa: Imprensa Libanio da Silva, 1909), 9.
  4. A. Ricardo Jorge. A Botanica. Introdução ao estudo das plantas. (Lisboa: Universidade Livre, 1912).
  5. A. Ricardo Jorge. Contribuições para o estudo da flora liquenológica Portuguesa. I. Espécies e localidades novas (Lisboa: Imprensa de Manuel Lucas Torres, 1918).
  6. A. Ricardo Jorge. Contribuições para o estudo da flora liquenológica Portuguesa. II. Espécies e localidades novas (continuação) (Lisboa: Imprensa de Manuel Lucas Torres, 1919).
  7. A. Ricardo Jorge. Curso de Zoologia preparatório para a Faculdade de Medicina. Relatório (Lisboa: Tipografia Costa Sanches, 1921.), 7.
  8. A. Ricardo Jorge, “Museus de História Natural”, Arquivos do Museu Bocage, 12 (1941), 79-112.
  9. A. Ricardo Jorge, “A dupla missão - científica e cultural - dos Museus de História Natural à luz da Biologia e da Museologia modernas”, Arquivos do Museu Bocage, 23 (1952), 125-144.
  10. C. Almaça. Museu Bocage. Ensino e exibição (Lisboa: Museu Bocage, 2000).
  11. Ricardo Jorge. “Contribuições para o estudo dos invertebrados marinhos de Portugal”, Arquivos do Museu Bocage, 5 (1931), 135-136.
  12. A. Ricardo Jorge, “Contribution à l’études Chrysopétaliens. I. Sur le Protostomium et les premiers segments chez les genres Chrysopetalum, Heteropale et Bhawania”, Arquivos do Museu Bocage, 24 (1953), 97-113.
  13. C. Almaça. Museu Bocage. Ensino e exibição (Lisboa: Museu Bocage, 2000).
  14. G.F. Sacarrão, “Sobre alguns aspectos do desenvolvimento dos ovos telolecíticos e sua importância biológica geral (estudo preliminar)”, Arquivos do Museu Bocage, 19 (1948), 71-163.
  15. G.F., Sacarrão, “The meaning of gastrulation”, Arquivos do Museu Bocage, 23 (1952), 47-68.
  16. G.F. Sacarrão, “Sobre a evolução ontogenética das relações embrião-orgão vitelino nos Cefalópodos,” Arquivos do Museu Bocage, 26 (1955), 1-126.
  17. “Comptes Rendus. XIIe Congrès International de Zoologie”, Arquivos do Museu Bocage 6-A (1935).
  18. C. Almaça. Museu Bocage. Ensino e exibição (Lisboa: Museu Bocage, 2000).
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