Teixeira, Carlos
Da Memória da Universidade
Teixeira, Carlos (N. Aboim-Fafe, 1910; ob. ?, 1982). Área: Paleobotânica, Paleontologia, Estratigrafia. Docente: Universidade do Porto, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Dirigente de: Centro de Estudos de Geologia Pura e Aplicada da FCUL. Docente de: Botânica (UC), Geologia (UC), Paleontologia (UC). Aluno: Universidade do Porto, Universidade de Coimbra, Universidade de Lille. Curso: Ciências Histórico Naturais (PE), Ciências Pedagógicas (PE). Doutor: Universidade do Porto (?). Profissão: Naturalista;Geólogo;Biólogo.
| Carlos Teixeira (1910-1982)
O Renascimento da Geologia de Campo no século XX António Ribeiro Departamento de Geologia, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
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Carlos Teixeira nasceu a 23 de Setembro de 1910 e faleceu a 7 de Junho de 1982. Era natural de Aboim, Concelho de Fafe.
Licenciou-se em 1933 em Ciências Histórico-Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP); em 1934 foi nomeado Assistente extraordinário do grupo de Botânica; de 1937 a 1946 desempenhou funções de Naturalista do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico (FCUP). Em 1944 apresentou na UP a dissertação do desenvolvimento em Ciências Histórico-Naturais, tendo sido aprovado por unanimidade.
Em 1946 foi contratado como 1º. Assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Em 1948 apresentou-se a provas de agregação e em 1950 foi nomeado Professor Catedrático após concurso de provas públicas na FCUL.
Carlos Teixeira leccionou e investigou na Universidade do Porto em Botânica e em Geologia, onde foi discípulo de Gonçalo Sampaio e Carrington da Costa, respectivamente; antes tinha sido iniciado na Antropologia por Mendes Corrêa. Ainda na Universidade do Porto participa na criação da Sociedade Geológica de Portugal em 1940, que inclui os principais mentores da renovação da Geologia de Portugal: o próprio Carlos Teixeira que depois emigra para a Universidade de Lisboa; João Cotelo Neiva, que depois emigra para a Universidade de Coimbra; Alberto Cerveira, que inicia a renovação da Geologia Mineira na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; e Décio Thadeu, que dá continuidade à obra de Geologia Pura e Aplicada de Ernest Fleury no Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa. Já em Lisboa Carlos Teixeira colabora na renovação dos Serviços Geológicos de Portugal, a partir de 1935, sob a direcção do Engenheiro António Quaresma Viana, e onde estabelece relações de parceria científica com Georges Zbysweski, e com Orlando Ribeiro; é este o núcleo fundador da Sociedade Geológica de Portugal.
Em 1938 foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura, no Institut de Géologie da Université de Lille (França), onde foi discípulo dos grandes especialistas de Estratigrafia e Paleobotânica do Carbónico como Paul Bertrand, Paul Corsin e Pierre Pruvost.
Em Lisboa exerce funções de consultor e vogal na Junta de Energia Nuclear, vogal da Junta de Investigação Científica do Ultramar, onde chefia o Laboratório de Estudos Petrológicos e Paleontológicos, para além de ter sido consultor benévolo de várias instituições públicas.
Em 1952 é eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e em 1960 sócio efectivo, ocupando a cadeira do seu mestre Mendes Corrêa. Em 1955 é eleito sócio correspondente da Real Academia de Ciências Exactas, Físicas e Naturais de Madrid. Foi Vice-Presidente da Société Géologique de France.
É Director até 1974 do Centro de Estudos de Geologia Pura e Aplicada da FCUL, criado em 1956 pelo Instituto de Alta Cultura.
Carlos Teixeira foi um cultor da Geologia Clássica, onde o ênfase era posto na vertente História da Terra mais que na Dinâmica dos Processos actuais e passados. Pela sua formação era um Naturalista, simultâneamente Geólogo e, através da Paleontologia, Biólogo.
Estabeleceu escola na Universidade de Lisboa e os seus discípulos espalharam-se pelo país e estrangeiro; os geólogos portugueses, em geral, reconhecem o seu papel na defesa da profissão através da institucionalização do título profissional.
A obra científica de Carlos Teixeira abrange duas vertentes essenciais. Como especialista em Paleobotânica era reconhecido pela comunidade internacional; este reconhecimento traduz-se no simples facto de lhe terem sido dedicados alguns novos táxones por paleontólogos estrangeiros que pela primeira vez os descreveram.
Como generalista deve-se-lhe uma contribuição essencial para o conhecimento da geologia regional de Portugal e da Península Ibérica, traduzida na publicação da Carta Geológica de Portugal na escala 1/500 000, na publicação de dezenas de folhas e notícias explicativas da Carta Geológica na escala 1/50 000; na organização das reuniões do Oeste Peninsular e edições dos mapas do Maciço Hespérico em colaboração com Isidro Parga Pondal de Santiago de Compostela e Luís Garcia de Figuerola da Universidade de Salamanca. Contribuiu também para o conhecimento geológico das colónias portuguesas, tendo-se deslocado a Goa para direcção e execução de cartografia geológica.
Para compreendermos o papel de Carlos Teixeira na renovação da geologia em Portugal devemos considerar os seus antecedentes históricos e o contexto científico em que se moveu.
A geologia de Portugal tem a sua época de ouro desde meados do século XIX a início do século XX. Houve cultores de mineralogia influentes a nível internacional em períodos anteriores, mas o conhecimento sistemático do país é acelerado com a geração de Carlos Ribeiro, Nery Delgado e Paul Choffat. Todos estiveram ligados aos Serviços Geológicos ou a instituições que o antecederam; assim, ainda que mantendo contactos com os melhores especialistas europeus da sua época, não deixaram discípulos porque a sua actividade não podia perpetuar-se através de uma Escola de Ensino Superior.
Após a morte de Choffat em 1919 a geologia portuguesa entra em declínio acentuado nos Serviços Geológicos; nas Universidades o Ensino era puramente teórico e desligado do trabalho de campo, com raríssimas excepções. Assim a renovação da geologia em Portugal deve-se à conjugação de dois factores, que se potenciaram mutuamente. Na Universidade do Porto, Carrington da Costa apoia dois discípulos que retomam a tradição do trabalho de campo nas respectivas especialidades: Carlos Teixeira na Paleontologia e Estratigrafia e Cotelo Neiva na Petrologia e Geologia de Jazigas Minerais. Carlos Teixeira prossegue a sua actividade na Universidade de Lisboa e Cotelo Neiva na Universidade de Coimbra. A sua obra é complementar em virtude das especialidades a que se dedicaram, e ambos contribuem para o decisivo avanço na geologia de Portugal no após-guerra.
Por outro lado em Lisboa a acção persistente de Ernest Fleury, professor de geologia no Instituto Superior Técnico, influencia todos os seus discípulos engenheiros de Minas através de um ensino também ligado à geologia de campo; cria assim um ambiente propício à renovação da investigação em geologia, nos Serviços Geológicos, integrado na Direcção Geral de Minas, graças à acção do seu Director, Engenheiro António Viana, a partir de 1935, continuada depois pelos seus sucessores na Direcção Geral e nos Serviços Geológicos.
Carlos Teixeira é autor de cerca de 500 trabalhos e dezenas de artigos de divulgação das geociências em jornais de todo o País[1]. Contribuiu também para a tradução para português da terminologia geológica internacional.
Podemos assim garantir que Carlos Teixeira teve um papel decisivo no eclodir da geologia moderna em Portugal, e projectou internacionalmente a geologia portuguesa através do exercício da sua especialidade. A sua personalidade científica dominou totalmente a sua personalidade cívica e cultural, baseado numa auto-estimulada dedicação “monástica” à sua profissão, que exigia a si próprio e aos outros.
Se me é permitido um comentário pessoal, lembrarei sempre, para além dos altos e baixos na nossa relação profissional e humana, o Professor que, em plena crise académica de 1962, um dia me disse: “Sei que você anda a dormir algumas vezes fora de casa, a minha porta está sempre aberta…”
Notas
- ↑ Consideramos que as suas publicações mais relevantes, como especialista em Paleobotânica e em termos da sua contribuição para a geologia de Portugal, são as seguintes: C. Teixeira. O Antracolítico do Bussaco e a sua flora fóssil. Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal (Lisboa: 1941) Tomo 22, 19-38; C. Teixeira, “Fósseis Estheria no Retiano dos arredores de Coimbra”, Brotéric. Série de Ciências Naturais, Lisboa, 15 (3) (1946), 139-142; C. Teixeira, “Description de la faune Jurassique du Portugal, Brachiopodes par Paul Choffat (ouvrage posthume). Coordination et préambule par Calos Teixeira.” Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal (1947), 1-46; C. Teixeira, “Flora mesozóica portuguesa”, Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal (1948), 119; C. Teixeira, “Flora mesozóica portuguesa. II Parte.”, Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal (1949), 33; I. Parga Pondal, Ph. Matte, R. Capdevila; J.R. Parga, C. Teixeira, “Carte Géologique du Nord-Ouest de la Péninssule Ibérique (Hercynien et anté - Hercynien), échelle 1/500.000”, Serviços Geológicos de Portugal (1967); C. Teixeira, “Carta Geológica de Portugal na escala 1/500.000”, Serviços Geológicos de Portugal (1972); C. Teixeira; L.C. Garcia de Figuerola; F. Gonçalves; J.H. Henrile, “Mapa Geológico do Maciço Hespérico do Sudoeste da Península Ibérica na escala 1/500.000.” Dep. Petrol. e Geol. Univ. Salamanca (1975); C. Teixeira, J. Pais, Introdução à Paleobotânica. As grandes fases da evolução dos vegetais. (Lisboa: edição dos autores, 1976), 211; C. Teixeira, F. Gonçalves, Introdução à geologia de Portugal (Lisboa: INIC, 1980), 475; C. Teixeira. Geologia de Portugal, vol. 1- Precâmbrico Paleozóico (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981) 629.
Referências Bibliográficas
Francisco Gonçalves, “Subsídio para a História da Geologia em Portugal, desde 1900 e 1982” in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal no Século XX.
Publicações do II Centenário da Academia de Ciências (Lisboa: Academia das Ciências, 1982), 967-1002.
Rogério Rocha, “A vida e Obra de Carlos Teixeira”, 4º Congresso Nacional de Geologia, Porto (1995), Conferência inédita.