Torres, Branca Edmée Marques de Sousa

Da Memória da Universidade

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Branca Edmée Marques (1899-1986)

Torres, Branca Edmée Marques de Sousa, ou Marques, Branca Edmée (N. Lisboa, 1899; ob. Lisboa, 1986). Área: Ciências Físico-Químicas (PE), Radioactividade, Radioquímica, Química Nuclear. Docente: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Fil. cient.: Laboratório de Química Analítica do Instituto Superior Técnico, Laboratório de Química da FCUL. Dirigente de: Centro de Investigação de Química da FCUL. Docente de: Química, Química Inorgânica, Física. Aluno: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Curso: Ciências Físico-Químicas (PE). Doutor: Universidade de Lisboa (?). Mentor de: Elias, Anselmo Martins. Colabora com: Grade, ReginaViana, CésarMiranda, Carlos. Cargo(s): Professora Catedrática (?, ?, ?).


Branca Edmée Marques (1899-1986)

Uma Pioneira da Ciência

Maria Alzira Bessa Almoster Moura Ferreira

Departamento de Química e Bioquímica, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


Fonte: Memórias de professores cientistas. Coord. cient. Ana Simões. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001. pp. 50-57.

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Branca Edmée Marques de Sousa Torres nasceu em Lisboa a 14 de Abril de 1899, filha de Berta Rosa Marques e de Alexandre Théodor Roux, e aí faleceu a 19 de Julho de 1986.

Órfã de pai aos oito anos de idade, foi sua mãe que se encarregou de sua educação[1]. Completada a instrução primária, realizou os seus estudos liceais no Liceu Maria Pia (1º - 5º anos) e no Liceu Pedro Nunes (6º e 7º anos), matriculando-se depois na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa na Licenciatura em Ciências Físico-Químicas (PE) tendo sempre obtido as mais altas classificações em todas as disciplinas. No ano lectivo de 1923-24, ainda estudante, estagiou no Laboratório de Química Analítica no Instituto Superior Técnico sob orientação de Charles Lepierre. Ainda estudante foi-lhe oferecido um emprego num Laboratório a instalar em Huambo para fazer trabalhos laboratoriais de apoio à Missão Geológica de Angola, convite que não aceitou para poder terminar a sua licenciatura, mas sobretudo porque, e citando Branca Edmée Marques, “não desejava substituir Lisboa por região distante e desconhecida, e também não desejava limitar-se a uma situação de analista”[2]. Por isso, quando ainda antes de terminar o curso Achilles Machado a convidou para Assistente de Química, aceitou sem hesitação, apesar de ser a única senhora entre professores e funcionários do Laboratório de Química. Em 1925, terminada a sua licenciatura, inicia a sua importante carreira académica. A Figura 1 é uma excelente fotografia de Branca Edmée Marques em 1926.

Desejando especializar-se na ciência que mais a atraía, a radioactividade, em 1930 Branca Edmée Marques solicitou uma bolsa de estudos no estrangeiro à Junta de Educação Nacional que lhe veio a ser concedida em Novembro de 1931. Acompanhada pela mãe, por seu marido não poder interromper as suas funções na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, partiu no mês seguinte para o Laboratoire Curie do Institut du Radium de Paris onde trabalhou três anos sob a orientação de Marie Curie e, após o seu falecimento em 1934, de André Debierne por mais um ano. Durante a sua estadia em França, assistiu às aulas de Marie Curie e de Debierne sobre radioactividade, guardando cuidadosamente notas dessas aulas em cadernos que fazem parte do seu valioso espólio científico.

Em documento dirigido ao Presidente da Junta de Educação Nacional em 1932 apoiando o pedido de prorrogação da bolsa concedida a Branca Edmée Marques, Marie Curie escreveu:

Je certifie que Mme. Branca Edmée Marques a travaillé très utilement dans mon Laboratoire depuis le début de Novembre de 1931. Mme Marques a employé d’abord son temps pour se mettre au courant de la technique des mesures au laboratoire e pour apprendre les méthodes utilisées pour le dosage du radium e de l’uranium dans les minéraux. Ayant constaté le soin avec lequel elle s'est acquittée de sa tâche, je lui ai confié depuis trois mois une recherche personelle sur les conditions dans lesquelles s’effectue le fractionnement des sels de baryum radifère. Cette recherche a pour but de préciser les notions de coefficients de fractionnement e de partage envisagés dans quelques travaux antérieurs relatifs à cette question. Le travail de Mme Marques est en bonne voie, et je pense qu’il donnera des résultats intéressants. Pour pouvoir le continuer je sais que Mme Marques sollicite la prolongation de la bourse dont elle bénéficie actuellement, et j’espère qu’il est désirable qu’elle obtienne cette prolongation pour encore une année[3].


Tendo já demonstrado qualidades de excelente experimentadora, Marie Curie confiou-lhe o estudo das leis de separação do actínio a partir das terras raras actiníferas. Esse projecto não se concretizou porque em Dezembro de 1933 não tinha ainda sido prorrogada a bolsa de estudos da Junta de Educação Nacional, não havendo a certeza de poder estar mais alguns anos no Instituto, como esse trabalho exigiria[4]. Dessa investigação viria a encarregar-se Marguerite Perey que descobriu o frâncio em 1939 e que visitou o Laboratório de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em 1948[5].

Frontispício da Tese de Doutoramento de Branca Edmée, Nouvelles Recherches sur le Fractionement des Sels de Baryum Radifère.

Sem desanimar, Branca Edmée Marques prosseguiu com o estudo experimental da cristalização fraccionada dos sais de bário radífero que Marie Curie lhe havia proposto, e que a ocupara até então. Perante os excelentes resultados obtidos, Marie Curie aconselhou-a a convertê-los em tese de doutoramento, o que veio de facto a acontecer, e a que deu o título de Nouvelles Recherches sur le Fractionnement des Sels de Baryum Radifère[6]. Como segunda tese, com tema proposto pela Faculdade de Ciências de Paris, fez uma exposição sobre La Chimie et la Séparation des Radioéléments Synthétiques[7] tema de grande interesse nessa altura.

Em 21 de Novembro de 1935 (já depois da morte de Marie Curie), mediante provas públicas, tendo como arguentes Jean Perrin e Frédéric Joliot-Curie (ambos Prémios Nobel) e Debierne, descobridor do actínio e sucessor de Marie Curie na direcção do Institut du Radium de Paris, foi-lhe concedido o grau de Docteur ès Sciences Physiques com a menção de très honorable, a mais alta classificação em provas de doutoramento em França. Em 13 de Julho de 1936 foi reconhecida a equiparação deste Doctorat d’État ao grau de Doutor em Ciências Físico-Químicas (PE) das Universidades Portuguesas.

Embora tivesse sido convidada por Debierne a ficar como colaboradora nos seus trabalhos de investigação científica no Institut du Radium de Paris declinou o convite[8] e retomou a sua actividade na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, prosseguindo por toda a sua vida, uma carreira de docência e investigação científica notáveis, por vezes rodeada de alguns contornos menos justos que a sua vontade indómita conseguia ultrapassar.

No que respeita à sua actividade docente, embora doutorada desde 1935, só em 1942 passou a 1º. Assistente, apesar de desempenhar funções de Encarregada de Curso. Entre 1942 e 1953 passou a exercer, por contrato renovável ano a ano, funções de Professor Extraordinário, e em 1949 prestou provas para obter o título de Professor Agregado. Em 1954 concorreu a uma vaga de Professor Catedrático em que ficou aprovada em mérito absoluto, não tendo, porém, ocupado o lugar. Só ascendeu à categoria de Professor Catedrático após um segundo concurso em 1966.

O regime de aulas a que foi sujeita, quer em número de horas de docência quer no que respeita à variedade de disciplinas professadas é quase desumano como era, de resto, habitual na época em que a sua actividade se desenvolveu. Escreveu os textos de algumas disciplinas, sobretudo as suas lições de Química-Física em 1947/48 e as de Química Inorgânica que actualizava anualmente, regendo em anos diversos quase todas as disciplinas de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Merece uma referência particular o seu contributo para o desenvolvimento da investigação científica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e, porque não dizê-lo, do País.

Tendo passado cinco anos num dos mais importantes institutos de investigação da Europa, onde teve a oportunidade de trabalhar e conviver com personalidades verdadeiramente excepcionais a nível mundial, numa época em que se desenrolava a história das descobertas associadas à radioactividade, Branca Edmée Marques tentou e conseguiu implantar e desenvolver esse domínio de investigação no Laboratório de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Mercê dos seus esforços, é criado em 1936 o Laboratório de Radioquímica, que veio a dar origem ao Centro de Estudos de Radioquímica da Comissão de Estudos de Energia Nuclear, primeiro centro de investigação em Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, hoje infelizmente extinto, e de que foi Directora até ao final da sua carreira académica. Parte do equipamento científico desse centro encontra-se hoje no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa.

Naquele centro fez-se a formação de cientistas e técnicos sobretudo nas áreas de Radioquímica e Química Nuclear. Muitos alunos e assistentes de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa aí encontraram facilidades para se aperfeiçoarem técnica e cientificamente. Vários bolseiros do Centro de Estudos de Radioquímica vieram a ser assistentes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde alguns deles são hoje Professores. Outros foram integrados em diversos serviços oficiais, nomeadamente a Junta de Energia Nuclear, e em várias Universidades do País.

Apesar das suas pesadas tarefas de docência, de investigação e de orientação científica de estudantes e bolseiros, Branca Edmée Marques não descurava a sua própria actualização o que a levou a visitar alguns dos mais importantes centros europeus de investigação em Radioquímica e Química Nuclear.

É com esse espírito que, em 1949 e à sua própria custa, realizou viagens de estudo a diversos laboratórios do Comissariat à l’Energie Atomique e ao Institut du Radium de Paris onde colaborou em trabalhos de Química Nuclear em curso, durante as breves semanas da sua estadia em França.

Em 1951, em Inglaterra, visitou, entre outros, laboratórios de preparação de compostos radioactivos e de separação de isótopos, o Atomic Energy Research Establishment em Harwell e em Amersham, e a secção de radio-isótopos de um hospital londrino. A última destas visitas insere-se no seu interesse pelas aplicações terapêuticas dos radio-isótopos, assunto sobre o qual apresentou uma comunicação de colaboração com o médico R. Valadas Preto sobre o uso do iodo-131 em diagnóstico e em terapia na First Isotope Techniques Conference que teve lugar em Oxford em 1951.

Em 1953 visitou de novo o Institut du Radium de Paris e o Institut de Chimie Physique.

Branca Edmée Marques publicou seis trabalhos nos Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris, quatro dos quais ainda antes do seu doutoramento e que foram apresentados à Academia das Ciências de Paris por G. Urbain e Jean Perrin, sendo os outros dois já posteriores ao seu doutoramento e de colaboração com C. Chamié e H. Faraggi[9]. Em 1936 publicou três artigos no Journal de Chimie Physique, todos na área dos seus estudos sobre o bário radífero[10].

Branca Edmée Marques e duas colaboradoras no Centro de Estudos de Radioquímica da Comissão de Estudos de Energia Nuclear da Faculdade de Ciências da universidade de Lisboa.
Além destes, tem numerosos trabalhos individuais e de parceria com os seus colaboradores no Centro de Estudos de Radioquímica, de que destacamos Regina Grade, César Viana, Carlos Miranda, M. F. Lopes Cardoso e M. L. Sadler Simões, publicados em revistas nacionais ou sob a forma de comunicações a congressos nacionais e estrangeiros e publicados nas respectivas Actas ou Proceedings. Alguns dos trabalhos de Branca Edmée Marques foram citados por diversos cientistas (entre outros Irène Joliot-Curie e B. Goldschmith) e referidos em tratados.

Ainda no âmbito da sua actividade científica, Branca Edmée Marques escreveu uma breve biografia de Marie Curie para a revista Ciência[11], e outra de Jean Perrin a convite do Instituto Francês em Portugal no primeiro aniversário da morte do grande cientista[12].

Branca Edmée Marques foi várias vezes designada para o desempenho de funções oficiais e de representação de que se destacam as seguintes: em 1951 representou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Sociedade Portuguesa de Química e Física na First Isotope Techniques Conference; como representante da Sociedade Portuguesa de Química e Física inscreveu esta como sociedade co-fundadora da Fédération Européenne du Génie Chimique, em Paris em 1953; foi um dos representantes de Portugal na Segunda Conferência Internacional sobre Aplicações Pacíficas de Energia Nuclear que teve lugar na Sociedade das Nações em Genebra em 1958.

Foi membro das seguintes sociedades científicas: Sociedade Portuguesa de Química e Física, da qual foi Vice-Presidente do Núcleo de Lisboa durante vários anos; Société de Chimie-Physique de France; Société Française de Physique e Sociedade de Geografia de Lisboa.

Na parte final da sua vida activa como docente e investigadora teve sérios problemas com a vista que, contudo, não a impediram de prosseguir com essas funções até atingir o limite de idade. É por isso admirável que tenha tido a coragem de se submeter ao concurso que finalmente lhe permitiu ser Professora Catedrática já tão próximo da sua jubilação.

É nessa mesma fase da sua vida que, por ocasião do centésimo aniversário do nascimento de Marie Curie, Branca Edmée Marques teve a grande alegria e a subida honra de ser convidada pelo Institut du Radium de Paris[13], e a expensas do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França, para participar nas cerimónias de homenagem que se realizaram na Universidade de Paris nos dias 24 e 25 de Outubro de 1967[14], na qualidade de antiga colaboradora de Marie Curie.

Branca Edmée Marques foi uma grande Senhora que personifica o esforço enorme de uma mulher que apostou na vida através do valor inerente ao trabalho científico, lutando até ao fim pela defesa dos seus ideais académicos.

Referências

  1. Branca Edmée Marques, “Algumas notas recordativas”, manuscrito autobiográfico (incompleto), sem data, Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  2. Branca Edmée Marques, “Algumas notas recordativas”, manuscrito autobiográfico (incompleto), sem data, p.5. Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  3. Carta de Marie Curie ao Presidente da Junta de Educação Nacional, 24 de Março de 1932, Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  4. Branca Edmée Marques, “Algumas notas recordativas”, manuscrito autobiográfico (incompleto), sem data; Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  5. Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  6. Branca Edmée Marques, Nouvelles Recherches sur le Fractionnement des Sels de Baryum Radifère, Thèse, Serie A, nº 1585 (Paris: Les Presses Universitaires de France, 1935).
  7. Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  8. Branca Edmée Marques, “Algumas notas recordativas”, manuscrito autobiográfico (incompleto), sem data, Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  9. Branca Edmée Marques, “Sur la Répartition du Radium dans la Précipitation Fractionnée du Chlorure de Baryum Radifère”, C. R. de l’Acad. des Sc. de Paris, 196 (1933), 1309-1311; Branca Edmée Marques, “Sur la Cristallisation Fractionnée du Chlorure de Barium Radifère”,C. R. de l’Acad. des Sc. de Paris, 197 (1933), 1314-1315; Branca Edmée Marques, “Sur la Distribution du Radium dans les Cristaux de Bromure de Baryum Radifère”, C. R. de l’Acad. des Sc. de Paris, 198 (1934), 819-821; Branca Edmée Marques, “La Précipitation Fractionnée du Sulfate de Baryum Radifère”, C. R. de l’Acad. des Sc. de Paris, 198 (1934), 1765-1767; C. Chamié, Branca Edmée Marques, “Sur une Propriété des Radiocolloids”, C. R. de l’Acad. des Sc. de Paris, 209 (1939), 877-879; C. Chamié, H. Faraggi, Branca Edmée Marques, “Sur les Activités en Profondeur de l’Argent Irradié par Deutons ”, C. R. de l’Acad. des Sc. de Paris, 229 (1949), 358-360.
  10. Branca Edmée Marques, “Distribution du Radium dans les Cristaux des Sels de Baryum Radifère”, J. Chim. Phys., 33 (1936), 219-225; Branca Edmée Marques, “Contribuition à l’Étude du Fractionnement des Sels de Baryum Radifère”, J. Chim. Phys., 33 (1936), 1-40; Branca Edmée Marques, “Nouvelle Méthode de Séparation du Radium par Appauvrissement Rapide en Baryum”, J. Chim. Phys., 33 (1936), 306-312.
  11. Branca Edmée Marques, “Marie Sklodowska Curie - Grandes Lições Dadas pela História da Sua Vida (1867-1934)”, Ciência, 1 (Nova Série) (1963), 29-34.
  12. Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  13. Correspondência relacionada com a actividade científica de Branca Edmée Marques; Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
  14. Correspondência relacionada com a actividade científica de Branca Edmée Marques; Espólio Científico de Branca Edmée Marques, Biblioteca Central, FCUL.
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