Machado, Aquiles Alfredo da Silveira

Da Memória da Universidade

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Aquiles Machado (1862-1942)

Machado, Aquiles Alfredo da Silveira, ou Machado, Achiles (N. Queluz, 1862; ob. Lisboa, 1942). Área: Química. Docente: Escola Politécnica de Lisboa, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Escola de Farmácia anexa à Escola Médico‑Cirúrgica de Lisboa. Dirigente de: Sociedade Portuguesa de Química e Física, Academia das Ciências de Lisboa. Docente de: Química (UC), Química Mineral (UC), Toxicologia (UC). Aluno: Escola Politécnica de Lisboa, Escola do Exército. Curso: Engenharia Militar (PE). Profissão: Militar. Cargo(s): Professor Catedrático (?, ?, ?), Major de Engenharia (?, ?, ?).



Achilles Machado (1862-1942)

Um cientista e educador em Química

Ana Paula Carvalho e M. Fátima Minas da Piedade

Departamento de Química e Bioquímica, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa


Fonte: Memórias de professores cientistas. Coord. cient. Ana Simões. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001. pp. 14-19.

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Achilles Alfredo da Silveira Machado nasceu em Queluz no dia 25 de Dezembro de 1862, filho de José Cipriano da Silveira Machado e de D. Sebastiana Elisa da Silveira Lopes, e faleceu em Lisboa a 14 de Novembro de 1942.

Os seus primeiros estudos foram feitos tendo como professor o seu pai, que para além da instrução primária também lhe ensinou francês, latim, geografia e as primeiras noções de matemática. Os seus estudos prosseguiram em Lisboa onde frequentou o Colégio Europeu e posteriormente o Colégio Parisiense, onde ao fim de três anos concluiu os preparatórios tendo obtido distinção nos exames de Física, Química e Introdução à História Natural.

Continuou os seus estudos na Escola Politécnica onde ingressou em 1880, ao mesmo tempo que assentava praça no regimento de Caçadores 5.

Os seus estudos preparatórios na Escola Politécnica foram feitos sempre com grande distinção tendo, por isso, no 4º ano sido classificado para engenharia na mesma Escola. Matriculou-se em seguida na Escola do Exército onde foi sempre o primeiro do seu curso. Ainda como alferes-aluno já manifestava o seu interesse na divulgação da Ciência, tendo em 1886 escrito um volume de uma colecção designada Bibliotheca do Povo e das Escolas onde dissertou sobre Caminhos de Ferro.

No decurso da sua carreira como engenheiro militar (na qual atingiu o posto de general) é de salientar a sua contribuição no projecto e construção da estrada militar com linha férrea, entre a estação de caminho de ferro de Oeiras e o forte de S. Julião da Barra, bem como na construção das baterias de Alpena e S. Gonçalo.

Em Maio de 1896, a carreira de Achilles Machado tomou novos rumos ao ser nomeado lente proprietário da 6ª Cadeira (Química) na Escola Politécnica. Esta nomeação ocorreu na sequência do concurso aberto para ocupar os lugares deixados vagos pelo falecimento de Agostinho Lourenço e José Júlio Rodrigues. Os arguentes das provas foram António Joaquim Ferreira da Silva, da Academia Politécnica do Porto, e Francisco José de Sousa Gomes, da Universidade de Coimbra. As provas de Achilles Machado consistiram na apresentação da dissertação “Propriedades Coligativas das Soluções”, trabalho original com uma parte experimental importante, e em duas lições sobre “Carbonilos Metálicos” e “Ácidos Orgânicos”.

O início da carreira académica de Achilles Machado foi um pouco atribulado no que se refere à sua relação com os estudantes, pois ao tentar implementar uma avaliação contínua deparou com uma forte oposição dos alunos. Achilles Machado pretendia que de três em três lições um ou vários alunos dessem uma aula sobre a matéria dada, e de dezoito em dezoito lições se sujeitassem a um exame de frequência. A reacção inicial dos alunos a esta forma invulgar de avaliação foi muito negativa, comparecendo às aulas onde estava prevista a avaliação apenas os alunos militares (que a tal eram obrigados); no entanto até estes se negaram a ser avaliados, tendo-lhes sido atribuída a nota zero. Esta greve à avaliação repetiu-se apenas mais uma vez, perante a firmeza do professor, baseada, seguramente, na convicção dos bons resultados pedagógicos que esperava obter. Os resultados finais mostraram a vantagem do método seguido, com a aprovação de 50% dos alunos.

A preocupação com a parte experimental do ensino da Química foi uma constante na carreira docente de Achilles Machado, salientando-se o seu esforço para equipar os laboratórios de um considerável número de instrumentos, entre os quais se encontravam bombas calorimétricas, aparelhos para determinação da velocidade do som em diferentes gases ou vapores (e deste modo calcular pesos moleculares), e aparelhos para determinação da radioactividade das águas.

A vocação para o ensino demonstrada por Achilles Machado desde o início da sua carreira docente reflectiu-se nos manuais que escreveu e que marcaram uma época no ensino da Química em Portugal. Com efeito, Achilles Machado publicou uma vasta obra de textos de apoio às cadeiras que leccionava na Faculdade e igualmente compêndios para o ensino da Química no ensino secundário.

Considerado pelos seus pares como um professor e investigador exemplar, sobre ele escreveu Rebelo da Silva na Revista Agronomica em 1904, “ninguém pode negar a justiça de ter levantado o ensino da Química a uma grande altura”[1]. No mesmo sentido se pronunciou Herculano de Carvalho, que fez o elogio académico de Achilles Machado na sessão de homenagem promovida pela Academia das Ciências de Lisboa, ao afirmar: “Absorvido por sua atarefada vida de professor, não é de estranhar que pouco tempo lhe restasse para trabalhar no laboratório; mas, depois de ler com atenção este trabalho (trabalho científico sobre a urease de soja híspida) e os outros dois a que breve farei referência, não me resta dúvida de que Achilles Machado tinha gôsto pela investigação. (...) em alguns assuntos importantes foi êle, entre nós que deu os primeiros passos”[2].

Os trabalhos de investigação de Achilles Machado desenvolveram-se fundamentalmente nas áreas da Química-Física e Química Analítica, tendo publicado cerca de 30 artigos científicos.

Ao longo da sua vida profissional Achilles Machado manteve contactos com diversas Universidades e Escolas de Química da Europa, tendo ocupado cargos a nível europeu. Como representante do governo Português assinou em Paris, em 1932, a Convenção para a Constituição do “Office Internationale de Chimie”, do qual foi eleito Vice-presidente na 1ª sessão de trabalhos. Entre 1934 e 1937, foi eleito Presidente desta instituição.

A nível nacional distingue-se a sua contribuição para a edição da Revista de Chimica Pura e Applicada a qual tinha por função, de acordo com o programa proposto pelos seus fundadores:

archivar o que já (se) produz nos nossos laboratórios, orientar os que trabalham nos progressos incessantemente realisados (...), publicar artigos de explanação scientifica, doutrinaria ou experimental que possam ser d’utilidade aos alumnos (...) e aos que desejam ficar ao corrente dos progressos mais notaveis das sciencias chimicas. A litteratura e historia da sciencia chimica honrarão a nossa revista; (...). As questões de chimica pura terão aqui acolhimento e cabimento; (...) tenhamos (porém) de dar preferencia a assumptos de chimica applicada á hygiene, á agricultura, á medicina, á pharmacia, á medicina legal, etc.[3]

Achilles Machado integrou igualmente o grupo de químicos a quem se deve a fundação da Sociedade Chimica Portugueza numa reunião que decorreu na Faculdade de Ciências de Lisboa, a 28 de Dezembro de 1911. No primeiro corpo gerente desta sociedade desempenhou o cargo de Vice-presidente, tendo Ferreira da Silva ocupado o de Presidente. A partir de 1933 e até ao seu falecimento desempenhou o cargo de Presidente desta instituição, que entretanto se tinha passado a designar por Sociedade Portuguesa de Química e Física.

Foi nomeado sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa em 1897, tendo passado a sócio efectivo em 1906. Nesta instituição desempenhou diversos cargos directivos salientando-se o de Secretário Geral da Academia (de 1929 até 1933, data em que atingiu o limite de idade), de Secretário Geral Honorário a partir de 1933, e por fim as funções de Presidente no ano de 1936.

Foi também docente da Escola de Farmácia onde leccionava toxicologia, e fez parte da Comissão para a elaboração da Farmacopeia Portuguesa.

Entre os diversos cargos públicos para que foi nomeado, salientam-se os de Químico-analista e vogal efectivo do Conselho Médico-legal de Lisboa, desde que se criou a Morgue de Lisboa em 1899; Vogal do Conselho Superior de Instrução Pública e do Conselho Superior do Comércio e Indústria; Vice-presidente da Comissão técnica dos métodos analíticos oficiais; e Presidente de numerosos júris de exames de Liceu, exames de acesso ao Magistério secundário e exames de Estado.

Após a sua jubilação em 1932 Achilles Machado foi convidado para reitor da Universidade de Lisboa, pelo ministro Gustavo Ramos, cargo que não aceitou devido à sua avançada idade.

Recebeu ainda inúmeras condecorações de entre as quais se salienta a Grã-Cruz de Santiago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública para além da Comenda da Legião de Honra[4].

Se ao revisitar o percurso académico de Achilles Machado, mais de meio século após a sua morte, ainda restassem algumas dúvidas sobre a sua importância na sociedade da sua época, estas seriam facilmente dissipadas ao recordar as notícias sobre o seu falecimento publicadas nos jornais, e em particular a do jornal Diário de Notícias: “O general Achilles Machado, falecido subitamente na madrugada de ontem, era uma das mais prestigiosas e categorizadas figuras da vida científica, não só portuguesa mas europeia. Pode dizer-se que um escol de homens de ciência - médicos, professores, analistas, cirurgiões - deveu, durante perto de meio século, a este douto Mestre a sua preparação didáctica e profissional. Ao general Achilles Machado coube bem esta designação de Mestre, porque era conhecido junto de gerações sucessivas de discípulos”[5].


Notas

  1. Citação encontrada em António Pereira Forjaz, “Achilles Machado (1862-1942)”, Revista de Química Pura e Aplicada, 17 (1942), 81-91, 84-85.
  2. A. Herculano de Carvalho, “Sessão de homenagem ao antigo Presidente da Academia Prof. Achilles Machado, em 24 de Março de 1945”, Boletim da Academia das Ciências de Lisboa, 17 (1945), 1-25, 18.
  3. Revista de Chimica Pura e Applicada, 2
  4. A cidade de Lisboa, que desde há muito o pretendia homenagear, em 1979 atribuiu o seu nome a uma das ruas da cidade.
  5. 15 Novembro de 1942.

Referências bibliográficas

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